Data Science pode mesmo ajudar no combate às Fake News?

Elas já influenciaram em resultados de eleições, afetaram opiniões políticas, feriram pessoas e, inclusive, provocaram mortes: um dos maiores desafios do século XXI são as Fake News. Do inglês, as notícias falsas não são um fenômeno exclusivo da atualidade, mas, com a popularização das mídias sociais, elas têm se espalhado com cada vez mais facilidade.

A ciência de dados é um dos principais campos envolvidos no combate a esse mal, e os cientistas acreditam que aprimorar as técnicas de inteligência artificial será fundamental nesse processo. Isso porque as máquinas podem analisar muitas informações em uma velocidade maior do que a de humanos; e a rapidez ao indetificá-las é essencial.

No entanto, “ensinar” as máquinas a apontar as mentiras ainda precisa de alguns ajustes. Há muitas aplicações e questões que precisam ser aprofundadas, como as variações da linguagem. Além da grande quantidade de idiomas existentes, muitos trocadilhos, sarcasmos e neologismos podem escapar do alcance dos robôs.

 

 

Com isso, a aliança com outras áreas do conhecimento serão fundamentais para tornar todo o processo mais eficaz. A Psicologia, a Comunicação, a Estatística e a Linguística já tem algumas pesquisas muito interessantes que se relacionam com o assunto. Há, por exemplo, estudos que identificam alguns padrões na forma como os mentirosos falam. Outros, ainda, indicam se um texto é verdadeiro ou não a partir da quantidade de determinadas palavras usadas. Até a intenção é possível de ser desvendada a partir dos métodos da análise de discurso.

Também será fundamental, segundo a professora norte-americana Jen Golbeck, identificar as fontes do textos maliciosos. No geral, aqueles que criam as notícias fantasiosas usam sites nos quais podem manter o anonimato, como o Twitter, 4chan, Reddit. Já boatos costumam nascer pelo Facebook ou a partir de publicações humorísticas que são indevidamente levadas a sério. A especialista defende que ferramentas estatísticas e a identificação de anomalias na distribuição de algumas notícias podem ser o primeiro passo para que a máquina possa a encontrar uma farsa.

 

Fonte: Hacking, Distributed

De qualquer modo, as ferramentas de Data Science já são capazes contribuir no combate às fake news. A diferença entre hoje e daqui a alguns anos é que elas estarão mais independentes da ação humana, especialmente se a interdisciplinaridade estiver presente no processo de aperfeiçoamento dos sistemas.


 

 

 

Confira a palestra que a Prof. Jennifer Golbeck deu sobre "as fake news como desafio para a ciência de dados" (em inglês)

 

Como as Fake News afetaram eleições dos EUA

Uma pesquisa do The Pew Research Center aponta que pelo menos 62% dos adultos americanos se informam somente pelas mídias sociais, com destaque para o Facebook. Nessas plataformas, em geral, os algoritmos priorizam exibir informações que sejam compatíveis com o interesse de cada usuário. O que era para ser um sistema otimizador da experiência nas redes acabou se tornando um meio de isolar as pessoas em “bolhas” informacionais, como já apontava Eli Pariser em 2011. Forma-se, então, a impressão de que a maior parte das pessoas pensam de maneira similar, o que acaba fortalecendo pensamentos extremistas.

Portanto, não é surpreendente que, nas eleições estadunidenses de 2016, a população estivesse dividida e com os ânimos exaltados. A questão é que muitos se aproveitaram da confiança que as pessoas têm nos conteúdos divulgados nesses meios para difundir notícias falsas. Os interesses por trás do ato questionável variam tanto quanto quem produzia as informações mentirosas. Eleitores fervorosos, assessores dos políticos, jovens zombeteiros e até mesmo outros países tinham interesse em manipular a escolha do próximo presidente do país.

A equipe de Donald Trump, por exemplo, divulgou por canais não-oficiais do candidato que o Papa estaria apoiando-o, e a informação levou cerca de uma semana para ser desmentida pelo Vaticano. Outro caso, já comprovado pela Google, foi que russos investiram dezenas de milhares de dólares em anúncios e bots, que possivelmente influenciaram na derrota da candidata Hillary Clinton. Até jovens de uma pequena cidade na Macedônia entraram no jogo e lucraram milhares de dólares diariamente.

 

Um fator muito preocupante nas fake news é que elas costumam se espalhar mais rápido e ter um alcance maior do que as notícias verdadeiras, afinal, a pegada sensacionalista ainda gera mais curiosidade do público. Assim, mesmo que algumas sejam desmentidas, é possível que não alcancem a todos os que foram enganados. Tão preocupante quanto isso é que muitos jornais, conhecidos por sua credibilidade, acabam fortalecendo-as ao replicar as informações equivocadas, em geral por falhas no processo de apuração.

Desse modo, não é possível saber até que ponto a população dos Estados Unidos realmente conhecia seus candidatos e o quanto as farsas afetaram o processo de escolha do atual presidente.

 

Fake News e as eleições brasileiras de 2018

Após as polêmicas envolvendo as últimas eleições estadunidenses e de outros países, o Brasil pretende se antecipar para reduzir os impactos das fake news nos resultados das urnas em 2018. Recentemente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) levantou a pauta e iniciou debates com instituições públicas, especialistas e empresas de mídias sociais para lidar com o desafio.

O TSE também pretende fazer um convênio com o Comando de Comunicações e Guerra Eletrônica do Exército, além de contar com o apoio de mecanismo de inteligência artificial e Big Data no combate às notícias falsas.

“Precisamos acompanhar essa situação nas várias eleições e preparar as nossas resoluções já voltadas para essa nova realidade”, comenta o ministro Gilmar Mendes,  presidente do Tribunal Superior Eleitoral, em uma nota disponível no site do próprio órgão.

A proposta da parceria com o Exército, entretanto, levantou questionamentos. O presidente da Comissão de Direito Eleitoral da OAB-RJ, por exemplo, acredita que a função deveria ser delegada à Polícia Federal e do Ministério Público Federal.

O receio de ameaças à democracia e à liberdade de expressão também foi comentado. Para o especialista em Direito Público Giuseppe Gazzinelli de Barros, a divisão política dos brasileiros e a intolerância a opiniões diferentes aliadas à interferência no acesso à informações pode trazer consequências nefastas ao processo público.

“Importa saber qual o limite a ser percebido pelo TSE no acompanhamento e rastreamento dessas ‘fake news’ e qual a forma a ser utilizada para extirpação das mesmas do processo eleitoral, sem, contudo, privarmos os eleitores do seu direito de se manifestar e sem chegarmos ao uso impróprio da censura”, comenta o especialista em uma crônica no jornal Hoje em Dia.

Apesar das dúvidas e contrapontos, todos são unânimes: é preciso desenvolver medidas de segurança para que as notícias falsas sejam impedidas de se espalharem. As ferramentas de Data Science e de outras tecnologias serão fundamentais no processo de solucionar o desafio.

 

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