Desinformação: de onde está surgindo e o que você precisa saber sobre ela

Saiba como funcionam as maiores estratégias de fake news online e como evitá-las

 

Com o agravamento da crise do novo coronavírus (Covid-19), uma das mensagens mais compartilhadas via WhatsApp nas últimas semanas traz supostas orientações do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) de como se prevenir dele. Dentre elas, a informação de que o vírus só vive nas mãos durante 10 minutos, bastando o uso de desinfetante em gel para eliminá-lo.

Os italianos, cujo país já é o segundo com mais casos da doença, também têm utilizado a plataforma para se comunicarem e compartilharem notícias sobre o vírus. Outra mensagem, que diz ter um pesquisador não-identificado da Universidade de Zanjan na China como fonte, diz que grandes doses de vitamina C, encontrada no suco de limão, são o suficiente para se proteger do vírus.

Para além das prováveis boas intenções de quem tem as repassado, o que essas mensagens têm em comum? Todas elas são notícias falsas. Depois de ter sofrido críticas pela ausência de políticas internas de combate à desinformação, o Twitter anunciou que removerá da rede todo conteúdo de prevenção ao novo coronavírus que vá contra as recomendações oficiais de órgãos de saúde, incluindo tratamentos que possam prejudicar aqueles que segui-los.

Não se sabe ainda qual o propósito por trás delas, mas o cenário atual é avaliado por alguns pesquisadores como sendo o seu momento mais favorável. Em entrevista de 2018 à Agência France-Press, Rudy Reichstadt, diretor do Conspiracy Watch, um observatório francês direcionado à emergência de novas teorias da conspiração, argumentou que épocas de crise seriam um terreno mais fértil para o surgimento de fake news, uma vez que a emoção do momento é capaz de ampliar sua magnitude real.

Como se dão, na prática, portanto, essas estratégias de desinformação online? Acompanhe conosco:

A quem serve a desinformação?

Apesar de “fake news” ter se tornado um dos termos que mais se popularizou no debate online nos últimos anos ― principalmente no Brasil, como é possível ver no gráfico do Google Trends abaixo ―, é difícil reduzir a desinformação a um único fenômeno homogêneo ou com uma mesma motivação.

O próprio termo “desinformação” é, em muitas das vezes, insuficiente para descrever a situação que se desenha à nossa frente. Ele tem, sim, relação com seu cognato “disinformation” da língua inglesa, que diz respeito ao conteúdo criado e propagado com a intenção deliberada de injuriar uma pessoa ou instituição, normalmente com maior coordenação estratégica por trás. Além da política, que reúne os casos mais notórios de desinformação, bem como o maior número de ocorrências, outros assuntos que muito aparecem também, segundo o MIT, são terrorismo, desastres naturais, lendas urbanas e finanças.

Porém, não há, na língua portuguesa, nenhuma palavra específica para “misinformation”. Com esta, o estado de confusão é mais consequência do que causa, de maneira que a informação compartilhada, ainda que não seja verdadeira, pode causar um estrago não-intencional. Isso pode acontecer com um boato mal apurado, um dado datado ou descontextualizado, ou um tratamento médico alternativo sem a eficácia comprovada, a exemplo do caso visto na primeira parte da postagem.

A influência do WhatsApp

Um estudo conduzido pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal no fim de 2019 apontou que o WhatsApp é a fonte primária de informação para 79% da população brasileira. A facilidade de compartilhamento e a forte presença de pessoas conhecidas na rede colaboram para a existência de mensagens que podem receber um selo por terem sido encaminhadas com maior frequência, simulando uma sensação de credibilidade.

No entanto, há de se tomar cuidado com tudo que é recebido pelo aplicativo. Um levantamento da PSafe, uma startup brasileira voltada à cibersegurança, realizado em 2018, indicou que 96% das notícias falsas no Brasil são compartilhadas via WhatsApp. Mesmo que não seja uma exclusividade sua, ainda assim ele acabou se tornando o principal meio para a disseminação de fake news no Brasil.

Se uma notícia falsa tem, mais uma vez de acordo com o MIT, um alcance até 70% maior do que aquele de uma notícia verdadeira, não é de se estranhar que as ações coordenadas para a disseminação de desinformação priorizem uma plataforma que conta com 136 milhões de usuários espalhados pelo Brasil atualmente e que já virou a maior de troca de mensagens a nível mundial.

Identificando uma informação falsa

O que pode, então, explicar a amplificação desse alcance? As fake news têm uma estrutura e padrões de linguagem muito básicos, facilmente reconhecíveis. Raramente apresentam fonte e, quando apresentam, normalmente elas são anonimizadas. O texto é muito simples, sem preocupações com regras gramaticais e estilísticas da língua, com diversos erros de ortografia, palavras desnecessariamente em caixa alta e muitos adjetivos ― estes últimos, como um modo de dar ênfase e chamar a atenção.

Quando a informação é publicada em um blog ou portal, o título costuma ser mais longo, já que o alvo principal são aqueles que raramente leem o corpo de uma matéria. Comumente, ao fim, ainda há um pedido para que o conteúdo seja repassado ao maior número de pessoas possível.

As temáticas abordadas têm um apelo emocional muito forte, principalmente ao medo. Dessa forma, muitas das notícias falsas vão discorrer sobre crimes e golpes inexistentes, assim como soluções imediatas para problemas maiores ― basicamente, tudo aquilo que possa colocar uma pessoa em risco e vá fazê-la compartilhar a informação várias vezes.

A mensagem acima é uma das muitas que têm sido compartilhadas no Brasil, em meio ao pânico do Covid-19 e que apresenta algumas das características básicas das fake news. O primeiro aspecto que chama a atenção é a grafia errada do nome do vírus ― o certo seria “coronavírus”, sem espaço e com a devida acentuação. Um certo “velho médico chinês” é mencionado, sem que sejam identificados seu nome ou local de trabalho. Por fim, também não há nenhuma explicação de como a receita pode atacar a doença. A mensagem já foi desmentida pelo Ministério da Saúde, que declarou não haver “nenhum medicamento, substância, vitamina, alimento específico ou vacina que possa prevenir o coronavírus”.

A Ciência de Dados a favor da checagem de fatos

As agências de checagem de fatos têm se popularizado cada vez mais, a ponto de terem se tornado um ramo específico de atuação dentro do Jornalismo. Ainda, órgãos governamentais, como é o caso, por exemplo, do Ministério da Saúde, que recebem denúncias de notícias suspeitas por parte do público, para posterior confirmação de sua veracidade ou não.

Embora seja um trabalho primordialmente manual, exigindo bastante pesquisa, a depender da situação, sua demanda em épocas que requerem maior cuidado e carga de trabalho, como a eleitoral, faz com que seja quase impossível que ele seja cumprido integralmente.

A fim de cumprir com essas exigências em sua totalidade, já vêm sendo desenvolvidas ferramentas com base na Ciência de Dados para que essa a detecção de notícias falsas seja automatizada. Com base nos padrões de linguagem e conteúdo citados acima, algoritmos de machine learning (aprendizado de máquina) estão sendo treinados com esse propósito.

A principal dificuldade envolvendo esses projetos hoje é conseguir uma diferenciação precisa entre aquilo que é feito com a intenção de desinformar e criar confusão e aquilo que é apenas sátira. A chave para melhorar essa classificação pode estar em certas palavras que trazem um maior tom de coloquialismo ao texto, mais comum nas notícias falsas do que nas satíricas, dado que estas tentam emular o discurso jornalístico factual de forma mais fidedigna.

 

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