O que os dados dizem sobre a crise do Enem 2020?

Saiba como utilizamos o TWIST Discover para medir o impacto das pressões pelo adiamento do exame em diferentes mídias

 

O Enem 2020 foi realizado em um contexto muito diferente do que o usual. Aliás, foi tão pouco comum que nem em 2020 ele aconteceu: em maio do último ano, em meio ao acirramento da Covid-19 no país, foi elaborada uma consulta entre os candidatos do exame e a prova foi adiada para janeiro deste ano, quando se achava que o nível de contágio da doença já estaria controlado.

A segunda onda da pandemia, porém, chegou ao país e ainda estávamos longe de ter a doença sob controle. O cenário para a organização da prova piorou quando ela se viu alvo de um boicote nas mídias sociais e de diversas tentativas de judicialização, em instâncias federais e regionais, que tentavam impedir que ela ocorresse.

Ao longo de todo o mês de janeiro, nós fizemos uma análise ostensiva e multiplataforma pelo TWIST Discover, nossa principal ferramenta de monitoramento de mídias sociais, consistindo em notícias e publicações no Twitter sobre o Enem e o próprio Inep, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, agência ligada ao Ministério da Educação responsável pelo exame. Dessa forma, acompanhamos de perto todos os focos de crise e boicote relacionados à prova.

O que nós descobrimos, então? Acompanhe conosco:

Uma visão geral dos dados

Entre os dias 1 e 31 de janeiro, nós identificamos aproximadamente de 1.8 mil notícias e mais de 3.2 milhões de postagens no Twitter. O Discover permite que tenhamos uma visão geral da linha do tempo de publicações, mesclando ambos os tipos. Abaixo, vemos que a proporção entre os dois se manteve quase constante durante toda a nossa análise, indicando, como veremos à frente, um exercício de influência mútua entre eles.

Linha do tempo geral das publicações coletadas sobre o Enem e o Inep em janeiro: em azul, os tweets; em vermelho, as notícias

Também conseguimos acessar visualizações em nuvens de palavras. Em vermelho, temos os termos mais associados às notícias e em azul, os mais associados aos tweets.

Nuvem de palavras das notícias coletadas sobre o Enem e o Inep em janeiro

Nuvem de palavras dos tweets coletados sobre o Enem e o Inep em janeiro

Podemos conferir, ainda, uma lista geral das hashtags mais compartilhadas em relação ao assunto. Logo de cara, percebemos que uma boa parte delas se relaciona com a organização do boicote ao Enem, como a #AdiaEnem, #EnemSeguro, #AdiaEnem2020 e #AdiaEnemUltimato.

A seguir, separamos as 15 hashtags mais publicadas em todo o período de coleta e análise, bem como o volume associado a cada uma:

Lista de hashtags coletadas sobre o Enem e o Inep ao longo do mês de janeiro

E quem influencia os rumos da discussão? No Discover, temos acesso a duas listas diferentes, uma indicando os perfis que, pela quantidade de seguidores e compartilhamentos recebidos, têm o potencial de serem vistos por um número maior de pessoas, e outra que indica as contas que tiveram maior engajamento. Assim:

Lista de perfis que influenciaram a discussão sobre o Enem e o Inep ao longo do mês de janeiro no Twitter

Enquanto na primeira fileira vemos apenas perfis da mídia tradicional e que, portanto, têm maior capacidade de esclarecer os rumos que a prova pode apresentar, além de servir de contenção àqueles que desinformam, a segunda é mais variada. Temos desde influenciadores da plataforma — como o @HistoriaNoPaint e o @Paiva — a perfis comuns — como a @Fritas_sofia —, que viralizaram em meio ao alto volume de postagens sobre o exame.

Mas como podemos identificar os dados mais importantes e valiosos para a discussão?

Identificando a crise

Como tratamos em outras ocasiões aqui no blog, o Discover é essencial para antever e identificar crises a partir da detecção de uma atividade incomum em torno do tema que está sendo analisado e debatido. Pela nossa linha do tempo, conseguimos identificar os períodos exatos em que as discussões sobre o Enem se acirraram. Foram estes:

Linha do tempo de publicações sobre o Enem e o Inep em janeiro; circulados em verde, temos os principais picos volumétricos de repercussão

Entre os dias 3 e 6 de janeiro, identificamos o primeiro aumento de atividade. Antes de tudo, nós podemos, pelas opções de filtragem da plataforma, visualizar apenas os dados referentes àquele espaço de tempo. Comecemos por isso:

Tela de filtragem por data disponível no TWIST Discover

Este foi o mesmo período em que a tag #AdiaEnem começou a ter relevância pela primeira vez, quando ela foi publicada 12602 vezes. Ao passo que os tweets começaram a crescer, isso ocorreu analogamente às notícias.

O que já levanta suspeitas, em um primeiro momento, também responde a antigas perguntas, quando comprovado. Um dos mais relevantes dilemas da comunicação informatizada e em rede consiste na seguinte dúvida: as notícias ainda agenciam as discussões entre as pessoas ou as pessoas é que agenciam, por meio de suas discussões em rede, a imprensa tradicional?

No caso do Enem 2020, podemos dizer, com certa segurança, que encontramos as duas situações. No Discover, também conseguimos ter acesso às publicações do período, sem ficarmos restritos apenas a dados volumétricos e estatísticos. Com tweets, há a opção de dispô-las segundo o parâmetro desejado: postagens mais recentes, curtidas, retweets ou impressões.

Vejamos, então, o que estava sendo publicado nesses dias:

Exemplos de publicações sobre o Enem e o Inep entre os dias 3 e 6 de janeiro, com notícias à esquerda e tweets à direita

Logo, a correlação entre as mídias analisadas foi sendo retroalimentada a todo momento neste período anterior à primeira etapa do exame, realizada no dia 17. Isto é, era quase como se toda tentativa de adiamento e judicialização da prova, manifestada por políticos e diferentes entidades da sociedade civil, inflamasse ainda mais as mídias sociais.

Não foram raros os momentos em que isso aconteceu. Por exemplo, no dia 12 de janeiro, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) requisitou ao Inep mais uma mudança de data da prova, que foi bem acompanhada pela rede. Isso fica mais nítido quando filtramos nossa coleta no Discover pelo termo “secretários” e, mais uma vez, colocamos as publicações lado a lado.

Exemplos de publicações sobre o Enem e o Inep que tratavam do posicionamento de secretários estaduais de saúde, com notícias à esquerda e tweets à direita

Mais à frente, já no dia 14, a imprensa começou a reportar que, enquanto a recomendação geral era de que nenhuma sala ultrapasse 50% de sua ocupação, a organização do exame teria permitido que este número chegasse a até 80%. Não só isso inflou a proporção de tweets com a #AdiaEnem, como inspirou uma nova hashtag: a #InepMentiu. A tag, contudo, não foi tão proeminente, alcançando um pico de 377 postagens no dia 17.

No entanto, esta foi a última vez que os movimentos pró-boicote tiveram uma relevância mais acentuada no Twitter. No dia 16 de janeiro, véspera da primeira etapa, houve uma última tentativa com a hashtag #AdiaEnemUltimato, que atingiu 2.550 tweets. Nos dias 17 e 24 de janeiro, podemos associar os picos de publicações à realização do exame, de modo que eles não estão associados a nenhuma crise específica, mas a uma variedade de assuntos.

Como as crises desaparecem

É claro, outra maneira de se perceber crises é notar, de modo um pouco mais preciso, não só o quanto se fala de um assunto que não tinha tanta atenção, mas o que se fala sobre este mesmo tópico. Nossas nuvens de palavras acompanham o período pelo qual filtramos nosso dashboard e podem elas mesmas atuar como filtros para termos específicos contidos nelas.

Isto posto, como se comparam as nuvens geradas nos períodos anterior e posterior à primeira prova?

Nuvens de palavras referente às notícias, em vermelho, e ao Twitter, em azul, entre os dias 1 e 17 de janeiro

Nuvens de palavras referente às notícias, em vermelho, e ao Twitter, em azul, entre os dias 18 e 31 de janeiro

É de se notar o quanto o tema do adiamento e do boicote simplesmente parou de ser debatido para dar lugar a discussões sobre a prova em si em ambas as mídias. “Adiamento”, antes relevante nas notícias, dá lugar a “Abstenção”, por conta dos índices de abstenção notados em ambas as etapas no dia 17 e no dia 24. No Twitter, “Adia” e “Adiem” são substituídos por termos como “Gabarito” e “Questões”.

Não estranhamente, é a partir da realização da primeira prova que, ao filtrar a linha do tempo apenas pela tag #AdiaEnem, notamos a mesma brusca mudança de comportamento:

Linha de tempo de tweets filtrados apenas pela hashtag #AdiaEnem

Considerando a velocidade com que temas são discutidos em plataformas de redes sociais, o monitoramento em tempo real é a melhor solução para aqueles que buscam identificar e responder problemas e questões relevantes à medida que estes vão aparecendo.

Como vimos, tão rápido quanto alguns assuntos podem aparecer nas redes, tão rápido eles podem sumir, o que não significa, porém, que uma organização não deva agir para assumir o controle sobre a situação. O que deve ser evitado a qualquer custo é o silêncio.

 

O objetivo deste texto não foi destrinchar todos os focos de crise do Enem 2020, mas mostrar as diferentes possibilidades de utilização do Discover. Longe de ser uma ferramenta estática, as muitas oportunidades de filtragem entregam resultados e insights diferentes em cima dos mesmos dados a depender de quem a utiliza e com que fins.

Se você estiver em busca de ferramentas para o monitoramento e gestão das crises de sua marca, fale conosco para conhecer melhor o Discover! Para mais conteúdos sobre Ciência de Dados e inovação, continue acompanhando nosso blog e assine nossa newsletter.

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